Respeito




Recatado, estranho, fechado e instrospectivo: aquele cara novo na escola parecia até um reflexo meu. Fiquei sabendo que morávamos na mesma rua e tentei conversar com ele.

Eu também era tímido, mas às vezes os tímidos conseguem se compreender no silêncio entre
palavras pausadas e frases demoradamente elaboradas.
Descobri que ele era estranho sim, mas talvez em um outro nível.

Cada um era fechado em sua própria estranheza, e isto talvez tenha impedido que nos tornássemos amigos.

 


Meses depois, a vida continuava a caminhar e eu que ainda era um tanto recatado e estranho começava a gostar de uma menina. Gostei tanto que ela me ajudou a perder um pouco dessas
esquisitices que nunca me agradaram muito... ela me fez gostar mais de mim mesmo. Um dia estávamos juntos e felizes, sentados num muro qualquer da minha rua e jogando conversas doces fora, quando o tal rapaz apareceu, tímido, fechado e ausente pro mundo como sempre. Ele
passou por nós, voltando de sua aula de violino e carregando o instrumento nas costas. Me incomodou vê- lo. Ele era um reflexo do meu passado, e algo me dizia que seria o reflexo do meu futuro. Encarei-o de leve, me sentindo melhor que ele por ter alguém que gostasse de
mim mesmo eu sendo tão estranho.


Ele ainda não tinha conseguido tal proeza, e a minha capacidade de "ser
querido" estava ali, sendo escancarada diante dele. Ao mesmo tempo o olhei com respeito, pois sabia que no fundo éramos iguais e o fato de eu estar feliz daquele jeito era quase que uma injustiça.

Pouco tempo depois, o rapaz foi estudar violino num lugar bem distante. Não o vi mais, mas às vezes o imagino ao lado de uma namorada violinista séria e bonita, que não precisaria de muitas palavras dele pra saber que ele a ama. Imagino que se cruzasse por ele
novamente, ganharia um sorriso que oscilaria entre o escárnio e a simpatia. Um sorriso mais do que merecido.

Gustavo Soares