
Quando menos espero, ele volta. Dessa vez, foi por causa de uma música. Já apareceu por diversos fatores, mas nunca havia sido assim. Ocorreu como um acidente, o nada seguido de algo, algo ruim. Novamente cutucou-me o cérebro (ou seria o estômago?), e sem medo: sabe que o jogo já está ganho. É como cócegas: inofensivo e até agradável no começo, mas com o tempo se torna algo sério e desesperador. Porque o que é bom dói, sim. Dói conforme passa, vai, finda. Prazeres de hoje geram bons futuros tormentos como o meu.
Veio diferente, por incrível que pareça. Não chegou com flores ou poemas ou filmes, como de costume. Desta vez, trouxe a casa toda. Do meu lado há roupas, comidas, cenários, esmeraldas envenenadas. Todos em cores berrantes que insistem em aparecer. Ele as trouxe porque sabe que me importo (somente eu me importo). Sabe que eu tento não deixá-las jogadas por aí, que procuro evitar vê-las. Mas, como uma assombração, ele as traz, pois sabe que não pretendo tropeçar nelas novamente.
Logo, sempre carregarei o peso comigo, e ele sempre correrá livremente, colecionando mais e mais coisas.
Enquanto controlo minha frustração, derivada de minha incapacidade, vejo-o alegremente abrir a porta. Rogo apenas para que ele pare de espalhar tantas coisas que me ferem e me traga algo de bom, para comer, talvez. Afinal, um homem tem que possuir algumas boas memórias, quaisquer que sejam.
Renato Mobaid