
Eu deveria estar dormindo agora. Já passou da meia noite, já escovei os dentes, já me senti bem e mal o suficiente. Estou deitado na cama, o lençol está solto e o colchão de malha sintética me deixa com ainda mais calor. Uma lágrima passeia pelo meu cérebro. Não, ela não vai escapar: meus olhos tem medo da realidade e não aceitam essas demonstrações de fraqueza. Se escrevo agora, é porque estou triste. É porque matei alguém.
O computador tocava a última música da noite, enquanto eu trocava de roupa e me dirigia a uma das paredes para fechar a janela. Isso há uns 10, 15 minutos atrás. Se eu tivesse trancado a janela antes, tudo estaria bem. Mas a janela aberta era um convite, e minha visita ali estava, batendo asas e flutuando em minha direção.
Um inseto. Não consegui distinguir exatamente o tipo de inseto, mas isso não interessa: ele era uma visita. E visitas a gente recebe (ou ao menos tenta) de braços abertos. Talvez ele tivesse sido atraído pela atmosfera mágica que meus sentidos desgastados já não davam mais tanta importância. Da janela, meu visitante ouvia notas pausadas e perfumadas de um piano. Conversando com elas estava um contra-baixo, que resmungava bem baixinho. A luz alaranjada vinda daquele retângulo no céu escuro era intensa e convidativa... e havia um alguém andando naquele espaço que talvez quisesse conversar. Desculpa, inseto. Desculpa, eu pensei que você fosse um marimbondo e por isso eu fuji. Eu pensei que você trouxesse más notícias, e por isso procurei o chinelo embaixo da cama.
Eu sei que a primeira batida não doeu tanto. Você ainda se mexia no chão. Talvez apenas uma pequena fratura em uma de suas asas. Talvez uma agulhada bem fina no coração. Bem fina mesmo, até porque você é um inseto e por mais finas que sejam as dores elas ainda têm de caber no seu coração microscópico. Doeu pouco, eu sei. O que fiz depois deve ter doído mais.
Eu precisava escovar os dentes, inseto, e você me atrapalhou. Se fosse uma joaninha, eu teria te deixado passeando e colorindo meu quarto. Mas você parecia um marimbondo e isso eu não podia aceitar. Após a primeira chinelada, larguei o chinelo em cima de você, lhe espremendo, para que você não saísse do lugar enquanto eu não tivesse terminado meu momento sagrado de higiene.
Quando voltei do banheiro - o hálito fresco, a consciência nem tanto - não te encontrei embaixo do chinelo. Procurei pelo chão, pelas paredes e por um instante me senti vulnerável. Agora eu me tornava aquela presa que, imóvel, sente a presença oculta de um predador discreto. Poderia ser atacado por um imenso marimbondo a qualquer momento. Rá! Mas isto estava longe de seus planos...
Você não estava esmagado embaixo da sola e nem escondido em alguma parede. Ao levantar minha arma do chão, não percebi que você agora a dominava. De algum jeito você escapou de todo aquele peso e sentou-se em cima do chinelo. Imagino perfeitamente este momento de vitória: você erguendo com uma das patas o chinelo ao mesmo tempo em que batia as asas para se deslocar rapidamente para fora daquela escuridão sufocante. Posso ver você escalando o chinelo, como um herói que pisa no cadáver do seu maior inimigo. Quando te vi vivo (embora um pouco atordoado) deveria ter notado seus olhos cheios de orgulho. Mas você parecia um marimbondo. E você não imagina como era difícil de aceitar isto.
Sem pensar muito dei mais dois, quatro, sete golpes em teu corpo. Você resistia, e eu batia mais. A cada chinelada, uma parte de seu corpo parava de se mexer. Em poucos segundos, você já estava praticamente imóvel. Peguei uma pá e recolhi você do chão. Só então tive a coragem de te olhar de perto.
Meu deus, você não era um marimbondo. Tinha corpo longo, cor escura, mas porra - você não era uma marimbondo! Te olhei com um misto de simpatia e remorso. Você era, sim, uma linda libélula adolescente. Ou apenas uma libélula franzina que gostava de ouvir blues e, quem sabe, trazer mensagens de bons sonhos para pobres homens solitários. Eu nunca desconfiei que libélulas voassem durante a noite.
Oh inseto! Como me desculpar? Eu assassinei o mais inocente dos insetos. Vocês libélulas são tão alegres - parecem seres do Jurássico, mas contraditoriamente sempre agem com maneiras leves e graciosas. Lembro de vocês dando pequenos rasantes para beber a água da piscina de minha antiga casa. Nunca, nunca na vida ouvi dizer que uma criança foi atacada por uma de vocês.
Lembro também que minha mãe tinha um Chevette azul claro, e era engraçado ver vocês dando rasantes e batendo na lataria do automóvel pensando que aquilo era feito de água. Eu até tentei algumas vezes apontar o caminho certo, a piscina ou a poça d'agua mais próxima. Coitados... tão rápidos, tão distraídos. Nem me ouviam.
Temo ter matado a última de vocês. Minha antiga casa já não tem mais uma piscina (construíram um parquinho em cima). Minha mãe já não tem um Chevette azul. Vocês carregavam dentro de seus corações minúsculos uma parcela enorme de minhas lembranças, e eu assassinei o último de vocês. Talvez você tivesse vindo me contar histórias da infância que eu já nem me lembrava mais. Talvez você tivesse vindo apenas para me desejar um bom sono.
Feito estátua eu te observava ali, espalhado, quebrado, triturado na pá de plástico sujo. Belo, suave, morto. Junto com teu pequeno corpo, jazia um pedaço da minha esperança de reaver a felicidade inocente dos tempos de moleque. Não te joguei no lixo. Eu não aguentaria de remorso. Abri a janela e te arremessei aos céus. Talvez no meio de tantas estrelas, anúncios luminosos, lanternas de automóvel e lâmpadas caseiras você acordasse.
E então nem lembraria dos momentos de dor que lhe proporcionei: as luzes estariam tão coloridas e intensas que você voaria atrás de cada uma delas. Músicas ainda mais doces brotariam das janelas.
E se agora rezo por algo, não é por sua vida: você está vivo, voando, e eu sinto isto. Se eu rezo agora, é pra que você não encontre mais em teu caminho outros homens ingratos como eu.
Gustavo Soares
(Dezembro de 2004)