CACHORROS, TUMORES E REALIDADE
Tudo se iniciou
com um cachorro. Mas este texto não começará
falando de cachorros: eles virão depois. Vamos falar
primeiramente sobre quebra-cabeças!
Certa vez pensei que o mundo é um grande quebra-cabeças
que gostamos de acreditar que já está montado.
Engraçado que, tempos depois, cheguei à conclusão
de que na realidade o mundo que vemos é a própria
caixa de quebra-cabeças fechada e com código de
barras impresso, onde podemos ver na capa a figura original:
aquela, que foi desmembrada em pequenas peças para que
pudéssemos remonta-las em momentos de lazer. Dentro da
caixa, as peças reais soltas formam um grande emaranhado
de cores e linhas estranhas e desconexas. Assim é o mundo:
acreditamos observar o panorama exato, quando o que há
por trás dele é um enorme mosaico caótico
de cores e formas. Viver o mundo e observa-lo é jogar
um constante jogo de quebra-cabeças.
No entanto, é
extremamente trabalhoso observar cenas novas a cada dia de nossas
vidas e montar as peças em nossa mente rapidamente. A
quantidade de informações que a realidade vomita
em nossas faces é tão grande que acabamos por
utilizar idéias pré-formadas (estereótipos
e pré-concepções) para ocupar aquelas peças
que são difíceis de encontrar e encaixar. É
como se buscássemos em outros quebra-cabeças peças
bastardas para encaixa-las naquela cena de maneira mais ou menos
convincente.
Desta maneira,
trapaceia-se no quebra-cabeça da vida todos os dias,
embora inconscientemente. Tal trapaça é inevitável
e possui efeitos em nossas vidas que podem ser bastante prejudiciais.
No entanto, embora a trapaça da mente seja inevitável,
não é impossível que tenhamos consciência
dela e tentemos diminuir os seus efeitos. Por exemplo: todos
os dias vemos pessoas e mais pessoas andando pelas ruas, e passamos
por elas sem notar exatamente a sua aparência. Enquanto
caminhamos, avoados e despreocupados, o mundo em nossa volta
está desmontado: peças coloridas e desconexas
passam ao seu lado, e no fim do dia você é incapaz
de lembrar por quantas pessoas você passou durante a sua
caminhada matinal e como elas eram. Afinal, você não
olhou em nenhum momento com atenção para a realidade:
você olhava mais para dentro de si, sem a preocupação
de "montar" o mundo à sua volta. Eis que então,
em certo momento de sua caminhada, você observa
alguém que difere do todo. Um mendigo, por exemplo. Para
quê reparar em cada detalhe daquela nova pessoa? Sua mente
automaticamente rouba as peças do "Quebra-Cabeças
Mendigo" (que você já tem guardado em alguma
das gavetas do teu cérebro) e as coloca no quebra-cabeças
mutável da realidade, tornando assim menos árdua
a tarefa de identificar aquele objeto. O tal do Quebra-cabeças
Mendigo nada mais é que um jogo já montado dentro
de sua cabeça (com certas qualidades, valores, cores
e formas) que definem pra você o que é um mendigo.
Se você fosse descrever o mendigo que viu rapidamente
hoje, certamente ele seria muito parecido com o mendigo que
viu meses atrás.
Mas o que o maldito
cachorro tem a ver com mendigos e quebra-cabeças?
Dias atrás,
caminhava por uma rua em que passo todos os dias quando encontrei
um vira-lata deformado: embora seu corpo fosse um corpo normal
de cachorro, sua face era estranhamente dividida: do lado esquerdo,
a cara de cachorro normal, do lado direito, um emaranhado de
bolhas e tumores enormes que o desfiguravam. Ao vê-lo,
minha mente entrou em colapso. Tentei observar o cachorro como
um todo, mas enquanto o lado esquerdo do mundo à sua
volta se apresentava perfeitamente montado e familiar, o mundo
do lado direito se estilhaçava em milhares de peças
coloridas. Desviei o olhar assustado, e olhei novamente. E mais
uma vez aquele animal estilhaçava minha visão
do mundo, sem emitir nenhum latido.
Não odiei
o animal (muito pelo contrário, fiquei assustado e fascinado
ao mesmo tempo), pois, no final das contas, ele só estava
pedindo emprestado um quebra-cabeças que eu ainda não
tinha montado na cabeça. O meu quebra-cabeças
de cachorro é um jogo montado, perfeito e completamente
SIMÉTRICO: um lado corresponde ao outro e isso facilita
ainda mais quando observo cachorros na rua, pois não
preciso identificar cada lado deles ou observa-los como um todo.
O meu cérebro pode duplicar um dos lados e invertê-lo
para que a junção gere um cachorro perfeito. A
SIMETRIA é o maior exemplo do conformismo trapaceiro
de nosso cérebro: ver uma pessoa ou um objeto qualquer
que seja simétrico descansa nossos olhos, pois estamos
vendo algo que nos dá um sentimento de segurança
(caso não tenhamos o quebra-cabeça completo em
alguma gaveta do cérebro, é só xerocar
metade dele e completar o quebra-cabeças rapidamente).
Tanto é verdade, que não sabemos onde olhar quando
falamos com pessoas estrábicas, e consideramos de uma
beleza angelical pessoas perfeitamente simétricas, mesmo
que não nos demos conta disto.
O cachorro deformado
é, por si só, o salvador do nosso conformismo
trapaceiro. Tendo ou não noção disto, latindo
e vivendo uma vida canina despreocupada, ele quebra a nossa
visão de mundo, ele a despedaça e obriga a nos
esforçarmos para reconstruí-la. Cada tumor em
sua face era uma peça nova que se apresentava, e embora
meu cérebro tentasse encontra-la desesperadamente numa
gaveta, eu ainda não possuía o "Quebra-Cabeças
Tumor de Cachorro". Tive que construí-lo sozinho,
suportando todo meu estranhamento.
O cachorro, portanto,
é o menos culpado da história. Eu que tentei observa-lo
pela metade, com meu cérebro preguiçoso, para
que fosse rapidamente duplicada a outra metade. Mas o tumor
era evidente e agressivo demais para que eu conseguisse. O cachorro
só poderia ser observado como algo único, como
um todo, e não como duas metades.
Portanto, não
dê tanta atenção quando um amigo usa a mochila
com uma das alças dobrada do lado errado. Ou quando sua
amiga tinge o cabelo só de um lado e isto te causa uma
irritação imensa. E nem se incomode com o seu
hamster, que perdeu uma das orelhas naquela rodinha onde fazia
exercícios e ficou feio. No final das contas, eles só
estão te ajudando a observar de maneira menos falsa a
própria realidade.
Gustavo
Soares