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O Tubérculo Peludo
No cursinho, a professora apresenta uma aula sobre mamíferos. Ratos, gatos, ornitorrincos - ornitorrinco é mamífero?
O rapaz discorda que ornitorrinco seja mamífero, mas se assim o dizem, ele está livre pra considerar mamífero o bicho que quiser.
Rabiscando em seu caderno, pensa no tubérculo peludo, uma espécie antiga e primitiva que sua professora nunca ouviu falar.
E nem os livros se atreveram a descrever.
O tubérculo peludo é um mamífero pequeno e há quem diga que é primo dos ratos. De fato, o tubérculo tem o tamanho de um rato selvagem, mas seus pêlos são um pouco mais longos e duros, com forma de ganchos. Possuem esse nome, pois, em determinada vila nas montanhas norueguesas, esses animais são extraídos do subsolo e servidos no almoço.
Isso acontece somente no verão, quando os pobres animais perdem seus pêlos de gancho para que sintam menos calor. Sua pele ganha então maior visibilidade, adquirindo uma tonalidade amarela e pálida próxima da cor de uma batata. Os tecidos do tubérculo peludo são extremamente sensíveis à luz do sol. Hoje se sabe de vários tubérculos que morreram em menos de uma hora ao quebrarem uma perna ou se prenderem em um galho e ficarem, assim, fatalmente expostos ao sol. Seus guinchos nessas ocasiões são tão altos e horrorosos que, durante muito tempo, foram atribuídos a espíritos. Os homens não acreditavam que barulhos tão altos e macabros pudessem vir de seres tão pequenos.
É por causa desta opressão solar que os tubérculos vivem debaixo da terra durante o verão. O que, de certa maneira, é saudável e ruim ao mesmo tempo, já que quando estão embaixo da terra são facilmente capturados pelos habitantes da vila. |
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Tubérculos com molho rosé e amoras se tornaram um prato típico na vila norueguesa, principalmente durante as festas folclóricas.
O tubérculo também precisa ser esperto o suficiente para sair de seus túneis subterrâneos antes que o inverno chegue; o tubérculo esquecido ou preguiçoso corre o perigo de ver seus pêlos de gancho crescerem rápido demais e prenderem seu corpo para sempre dentro da terra, onde, imóvel, ele certamente morrerá de fome. |
Mas o que o rapaz mais gosta sobre os tubérculos peludos (e que talvez também aconteça com os ratos, mas a ciência ainda não tenha tido tempo para analisar) é que as fêmeas de sua espécie ficam grávidas apenas uma vez por ano.
Durante a gestação, a tubérculo mãe gera cerca de 30 filhotes. Como possui uma estrutura frágil demais e sua genitália é muito apertada, a mãe dá a luz a apenas 3 ou 4 filhos de cada vez. Pode levar semanas ou meses para que ela se recupere e possa ter um novo parto. No entanto, os filhos restantes continuam a crescer e se desenvolver dentro do ventre, o que pode trazer muitos problemas para a mãe. Além de precisar se arriscar mais para buscar alimento para todos os filhos nascidos e não-nascidos, a mãe corre o risco de ser devorada por dentro pelos próprios filhos.
Mas isto acontece apenas quando a mãe não consegue alimentar seus filhos. Tem aquelas que sofrem mais: alimentam-nos a ponto de deixá-los insatisfeitos (eles comem o suficiente pra viver, mas não para se satisfazer, e o escuro e aperto do útero com os irmãos agitados os deixam ainda mais nervosos).
Nesses casos, os filhos não se alimentam da carne da própria mãe, já que se acostumaram com a escassa comida externa. O que acontece é que a agitação em seu ventre é tamanha que a mãe sente aumentar seu cansaço e fica incapaz de buscar mais comida. Acaba então morrendo, com todos os filhos dentro, que logo verão o escuro em que vivem ser substituído por outro escuro mais silencioso e definitivo.
O rapaz fecha o caderno com seu tubérculo desenhado. Pouco tempo depois, chega em suas mãos um papel com questões sobre os mamíferos explicados na aula. Na cara da professora, o rapaz lê: escreva apenas sobre mamíferos existentes, ou seja punido com um zero.
Gus Morais
Fevereiro / 07
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